Nani e o Labirinto

Prólogo
Nani parou de correr, estafada e convencida de que não conseguia encontrar a saída. Tinha perdido a conta dos corredores por onde tinha andado e estava convencida de que já tinha passado pelos mesmos mais de uma vez. Mesmo assim, não resistiu e espreitou o corredor que se iniciava à sua esquerda. Um homem e uma mulher, numa banheira, lavavam-se. Aproximou-se tentando não ser vista.  O homem não era um homem, mas um ser que ela identificou como o Minotauro. A mulher era ela própria, Nani. Não podia ser! Tinha chegado ali mesmo agora, estava a olhar para a mulher e para o Minotauro! Não podia estar na banheira também.

Diálogo
Furiosa, Nani avançou e disse ao Minotauro:
- Tens uns olhos feios como os das cabras. Dizem que desertaste, que abandonaste o mundo, que quando chegaste a este labirinto, vinhas nu e com os dentes por lavar e que só vias anémonas à tua volta, pretas, nos corredores. 
E o Minotauro respondeu:
- Quero um cigarro. Dá-me um cigarro. Os meus molharam-se na banheira.
- Pede a essa.
- “Essa” tem nome. Sabes quem é?
- Parece-se comigo!
E a que se parecia com ela disse:
- Eu sou a Deusa Nani, sou o teu lado divino que tu só consegues ver porque te sentes perdida.
- Eu sou então o meu lado humano... Não sabia que as deusas tomavam banho! E o que fazes aqui com este bruto?!
- Este bruto é um jovem e tirano que se entrega de corpo e alma às delícias... reza a cantar e tem muita fé!
O Minotauro disse então a Nani:
- Queres encontrar a saída, não é? Eu liberto-te se me prometeres que me vais trazer súbditos, mas não plebeus; traz-me nobres, ricos judeus, princesas sãs.

Junto à coroa de diamantes, de cada lado, dois cornos exibem-se a provarem a ascendência satírica do bicho. 
- Porque é que tens uns cornos tão grandes? – perguntou Nani.
- Muitas mãos de mulher os procuraram como apoio instintivo no momento em que o prazer lhes provocava vertigens. 
- És mesmo tirano!
- A minha tirania não se revela relativamente às mulheres... sou, até, razoavelmente generoso para elas. São os homens ricos que me irritam e me despertam sentimentos de vingança. É por isso que tu me vais ser útil.
E começou a cantar. Nani, visivelmente mais calma, disse-lhe quando ele acabou.
- O teu canto é mesmo a tua manifestação de fé?
- É!
- Impressionante! Estou mesmo tentada a procurar satisfazer os teus desejos.

Acção
E Nani, depois de seguir os corredores indicados, saiu do labirinto. Percorreu então o mundo em busca dos mais conhecidos nobres e dos ricos mais judeus. Entregou-os ao Minotauro que imediatamente os espalhou pelo labirinto. Em seguida Nani procurou e trouxe as sãs princesas. E o Minotauro sentou-as no cimo dos muros do labirinto. Daí conseguiam estender a vista pelos corredores quase todos. 

Pelas manhãs, bastante cedo, deliciado, o Minotauro coloca o elmo de ouro forte e afia os cornos: irá percorrer os corredores. Leva ao ombro uma espada com trinta e três marcas e espera voltar com algumas mais. Solta um balido que arrepia os homens e os faz procurar esconder-se nas sombras dos muros e nos arbustos do chão dos corredores. Levanta a espada e parte.
Nos muros, sentadas e também de pé, sãs as princesas acenam com os lenços.

Maislogo
Nani, entretanto, sentou-se com o seu lado divino, na banheira, à espera de um banho merecido.

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