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Nani e o Guarda-Chuva Quase Transparente

        Aos dezanove anos, Nani era virgem. Nunca tinha sequer dado um beijo a um rapaz. Não podia. Era proibido. Por isso, cobria as raparigas de beijos e chamava-lhes nomes feios enquanto lhes apalpava os seios.         Quando fez vinte anos decidiu fazer uma festa. Convidou as raparigas e os rapazes da aldeia. A festa seria de manhã, porque o dia do seu aniversário era a um Domingo e os adultos estariam na aldeia vizinha, a assistir à missa.        À medida que chegavam à festa, os rapazes e as raparigas iam-se surpreendendo, porque Nani estava vestida de uma forma bastante ousada: o que mais impedia os convidados de lhe verem a pele por completo era um guarda-chuva quase transparente que ela trazia aberto à sua frente.        A cada rapaz foi distribuído um copo de vinho. As raparigas receberam uma espiga de milho cada uma. Estavam todos intimidados e surpreendidos. Então Nani falou...

Nani e a Elevação

        Estranha agitação no  exteriooor . Nani surgiu. Andava numa elevação que não era mesmo nada usual, toda ela causa do terror puro.         Nani levantou a mão à altura dos olhos e admirou as unhas já com alguns meses sem esforço algum que as partisse ou sujasse. De qualquer forma ,  sentia-se cansada: as ideias davam-lhe cada vez mais trabalho a produzir.        Meia-noite. Resolveu ir à missa negra no vale. Repimpou a trança, ajeitou os seios e chamou um táxi. Logo veio um que se recusou a levá-la a tal sítio. Mas ela, que ainda tinha um pouco de pó de  e nxofre que o Diabo lhe tinha dado para quando fosse caso disso, atirou-o ao ar, disse as convenientes palavras mágicas e ei-la nos vales.         Quando chegou à igreja, o sacristão mandou-a à torre tocar o sino grande. Subiu e tocou e o sino espalhou um suspiro por todo o vale.         A mãe de Nani, que ...

Nani e o Ensimesmamento

Prólogo              O corpo de Nani jaz, inerte, na relva dos Jardins da  bab ilónia. Nani, no entanto , não se vê em lado nenhum. Onde está a Nani? Que terá acontecido para ter desaparecido e abandonado ali o corpo?               Tudo aconteceu no dia em que Nani foi visitada por um anjo. Saltitava ela por entre os riachos e as rosas, quando ele lhe surgiu, a descer lentamente dos céus, quase a pairar, com as pequenas asas a baterem a grande velocidade. Vestia uma combinação com muitas estrelas bordadas: vinha ensinar as constelações a Nani.             Sentaram-se no jardim, entre as rosas e a colmeia, e o anjo tirou a combinação e estendeu-a na relva. Quando, com o dedo apontado a cinco estrelas em forma de W, Nani perguntou que constelação era aquela, o anjo disse:     ...

Nani no Sofá

- Não saias! Não te mexas. - Não te posso beijar? - Não! - Nem acariciar-te? - Não. - É melhor obedecer-te! - Sente-me. - Sinto-te bem. - Sentes? - A tua expressão não engana. - És muito bonito! - Tu é que és muito bonita. - Pergunta-me se foi bom. - Não é preciso perguntar-te se foi bom. - Posso ter fingido. - Se fingiste, continua a fazê-lo. Mas se fingiste és muito boa  actriz .  - Ou tu um mau espectador. - Estou tão junto de ti, tão perto de ti, que mal te vejo... Com os olhos. - O quê? - Vejo-te mais com o corpo do que com os olhos. Percebes? - Percebo. Eu tinha os olhos fechados. - Eu sei. Lambi-te as pálpebras. - Ui! - O que foi? - Deixa-me libertar esta perna. - Não posso. Só se sair! - Não, não saias!  ...  Mas a perna dói-me muito. - Vamos tentar rodar abraçados. - Agarra-me bem e leva-me tu. - Cuidado. Abraça-te a mim para não cairmos do sofá. -  Hmmm ! - Já está. Estás melhor? - Muito...

Nani e o Labirinto

Prólogo Nani parou de correr, estafada e convencida de que não conseguia encontrar a saída. Tinha perdido a conta dos corredores por onde tinha andado e estava convencida de que já tinha passado pelos mesmos mais de uma vez. Mesmo assim, não resistiu e espreitou o corredor que se iniciava à sua esquerda. Um homem e uma mulher, numa banheira, lavavam-se. Aproximou-se tentando não ser vista.  O homem não era um homem, mas um ser que ela identificou como o Minotauro. A mulher era ela própria, Nani. Não podia ser! Tinha chegado ali mesmo agora, estava a olhar para a mulher e para o Minotauro! Não podia estar na banheira também. Diálogo ​ Furiosa, Nani avançou e disse ao Minotauro: ​ - Tens uns olhos feios como os das cabras. Dizem que desertaste, que abandonaste o mundo, que quando chegaste a este labirinto ,  vinhas nu e com os dentes por lavar e que só vias anémonas à tua volta, pretas, nos corredores.  ​ E o Minotauro respondeu: ​ - Quero um cigarro. Dá-me u...

ELLIONDE E MARLIA

DEPOIS DE PROMOVER A ESCRITA DE UM FOLHETIM A VÁRIAS MÃOS, A PREGUIÇA MAGAZINE APRESENTA UM NOVO PROJECTO LITERÁRIO. AGORA, O DESAFIO LANÇADO A DIVERSOS ESCRITORES PASSA PELA CRIAÇÃO DE CONTOS EM PARCERIA. HÁ UMA CITAÇÃO LITERÁRIA COMO PONTO DE PARTIDA E CADA PAR DE AUTORES DEVERÁ ESCREVER, EM CONJUNTO, UMA ESTÓRIA. NESTE QUARTO EXERCÍCIO, ANTÓNIO MARTINHO   E   GISELA CARREIRA   SEGUEM A FRASE DE ANA HATHERLY:   “NÃO SE AMA NUNCA, SÓ SE DESEJA” . ELLIONDE e MARLIA António Martinho & Gisela Carreira Quando Ellionde sentiu pela primeira vez o desagrado, auscultou o peito, demoradamente, e descobriu a causa: Marlia não a largava. E, no dia seguinte, chegou mesmo a chamar-lhe coração de siamês, num momento de irritação. Passou a sentir a alma dormente cada vez que Marlia lhe segurava o braço com aquela intensidade que, provocada pela estima que por ela tinha, lhe doía os nervos e lhe impedia o livre e feliz fluxo do sangue. À noite, esperava que Marli...

A PROPÓSITO

DEPOIS DE PROMOVER A ESCRITA DE UM FOLHETIM A VÁRIAS MÃOS, A PREGUIÇA MAGAZINE APRESENTA UM NOVO PROJECTO LITERÁRIO. AGORA, O DESAFIO LANÇADO A DIVERSOS ESCRITORES PASSA PELA CRIAÇÃO DE CONTOS EM PARCERIA. HÁ UMA CITAÇÃO LITERÁRIA COMO PONTO DE PARTIDA E CADA PAR DE AUTORES DEVERÁ ESCREVER, EM CONJUNTO, UMA ESTÓRIA. NESTE SEXTO CONTO,   SIMÃO VIEIRA   E   ANTÓNIO MARTINHO   INSPIRAM-SE NA FRASE DE CLARICE LISPECTOR:   “SOU UM MONTE INTRANSPONÍVEL NO MEU PRÓPRIO CAMINHO” . A PROPÓSITO Simão Vieira & António Martinho A PROPÓSITO, SIMÃO VIEIRA ESCREVE I Ele pensou em vingar-se. Tinha a pedra pesada na mão e olhava para o inimigo que dormia ali, tão perto. Seria um movimento fácil, mas tudo o mais se tornava difícil: ser mesmo capaz de fazer, de usar o corpo e a pedra com o pensamento. A mão segurava a simplicidade da pedra, a cabeça perdia-se na dificuldade das ideias. A pedra não tinha ideias. A pedra esperava, sem sentido, na mão-guindaste parva e...