A PROPÓSITO

DEPOIS DE PROMOVER A ESCRITA DE UM FOLHETIM A VÁRIAS MÃOS, A PREGUIÇA MAGAZINE APRESENTA UM NOVO PROJECTO LITERÁRIO. AGORA, O DESAFIO LANÇADO A DIVERSOS ESCRITORES PASSA PELA CRIAÇÃO DE CONTOS EM PARCERIA. HÁ UMA CITAÇÃO LITERÁRIA COMO PONTO DE PARTIDA E CADA PAR DE AUTORES DEVERÁ ESCREVER, EM CONJUNTO, UMA ESTÓRIA. NESTE SEXTO CONTO, SIMÃO VIEIRA E ANTÓNIO MARTINHO INSPIRAM-SE NA FRASE DE CLARICE LISPECTOR: “SOU UM MONTE INTRANSPONÍVEL NO MEU PRÓPRIO CAMINHO”.



A PROPÓSITO
Simão Vieira & António Martinho
A PROPÓSITO, SIMÃO VIEIRA ESCREVE I
Ele pensou em vingar-se. Tinha a pedra pesada na mão e olhava para o inimigo que dormia ali, tão perto. Seria um movimento fácil, mas tudo o mais se tornava difícil: ser mesmo capaz de fazer, de usar o corpo e a pedra com o pensamento. A mão segurava a simplicidade da pedra, a cabeça perdia-se na dificuldade das ideias. A pedra não tinha ideias. A pedra esperava, sem sentido, na mão-guindaste parva e avariada. A cabeça poderia imaginar, fazer de conta, fazer sem fazer. Talvez isso já fosse vingança suficiente. E deu por si a pensar quem era, que espécie de fenómeno seria ele que não era capaz; que, parecendo parado, balançava. E descobriu: ele era aquilo que impedia a força de matar. Ele era o “não”.
A PROPÓSITO, ANTÓNIO MARTINHO ESCREVE I
Que vida existia naquele lugar árido e pedregoso onde não havia vida humana para além dele. Havia a água, o Sol, as formigas gigantes e os peixes invisíveis, os lagartos e as cobras móveis e ele sozinho, deitado, quieto, como se dormisse, no meio de um vale arrebatador na margem do quilómetro do rio dormente que refletia a abóbada celeste azul formando uma paisagem tão serena que quase lhe cortava a respiração. E deu por si a questionar como foi capaz de dar autorização a si próprio para fazer tão grande mal a quem o perseguia. E descobriu: ele era aquilo que o impelira a agir daquela forma. Ele era o “sim”.
A PROPÓSITO, SIMÃO VIEIRA ESCREVE II
Um jovem sonha que é idoso. No sonho, sente-se incapaz de movimentos outrora simples, óbvios, e isso revolta-o. Está num futuro que lhe aprisiona o passado ágil: um corpo fechado sobre a memória de outro. No sonho, o vigor da juventude parece-lhe uma coisa próxima do voo de pensamento, sem percalço.
Quando acorda acha-se leve e capaz. Pura ilusão, porque logo começa uma impressão que dá em dor, cínica, nas articulações. “Mal de família”, dir-lhe-ão depois.
O corpo gasta-se com a culpa. E a culpa é dos outros.
A PROPÓSITO, ANTÓNIO MARTINHO ESCREVE II
Deitado na praia, um rapaz louro, musculado, de nariz e rabo empinado, tem frio e sono e espreguiça os bíceps e os peitorais, que se movem e deslocam ligeiramente, voltando depois à posição original, devagar, como se um pequeno veio de vento passasse por eles. Quando relaxa e se prepara para adormecer, acaricia os braços, embevecido, como se contasse os músculos um a um. Percebe-se que entra no sono quando um pequeno fio de baba lhe escapa pelo canto esquerdo da boca.
A PROPÓSITO, SIMÃO VIEIRA ESCREVE III
No palácio, havia um fantasma que não sabia que era fantasma. No caminho, um viajante que não se sabia perdido. Na noite, um inseto brevíssimo que não chegaria a conhecer a manhã. No som, uma parte de silêncio que concedia afinação. Na paisagem, uma montanha onde muitos alpinistas morriam por se julgarem além do possível – o alpinismo tem o perigo de não se limitar ao pensamento.
A PROPÓSITO, ANTÓNIO MARTINHO ESCREVE III
O viajante andava há muito num caminho escuro, quando chegou a uma bifurcação: uma possibilidade, iluminada e ruidosa, conduzi-lo-ia ao confuso labirinto que rodeia o palácio; a outra, na silenciosa escuridão, à montanha.
E decidiu também dividir-se em dois. Um de si foi pelo caminho iluminado. O outro, pelo caminho escuro.
Mas ele era antes do desdobramento: a consciência disso.
A PROPÓSITO, SIMÃO VIEIRA ESCREVE IV
Os cientistas tinham criado uma máquina extraordinária. Calculava estrelas e turbilhões, movia rochedos, contava histórias, embalava crianças. Fazia o intrincado, o duro e áspero, mas também o terno, macio e subtil. Com o tempo, a máquina aprendeu coisas. Aprendeu a ter medo. E oxidou a ponto de a ciência lhe declarar o óbito. Todavia, a verdade é que, muito secretamente, a máquina decidira entregar-se à contemplação.
A PROPÓSITO, ANTÓNIO MARTINHO ESCREVE IV
O ruído contínuo no cérebro da máquina só deixou de se ouvir quando ela sorveu o último gole de rum. No silêncio, começou a puxar o lustro do seu metal uivante, com lentidão, enquanto refletia e contemplava o próprio rosto, espelhada na face da sua faca mais cortante, e descobriu, finalmente, como iria transpor o monte: no Carnaval iria disfarçar-se de bando de gaivotas.
A PROPÓSITO, SIMÃO VIEIRA ESCREVE V
Em casa do velho Raaj, em Goa, havia um corvo que falava. Raaj ficara mudo, mas o corvo debitava o grande ensinamento do velho. O pássaro tinha isto para dizer: “No princípio do caminho há um espelho, deves ser humilde. No meio do caminho pode aparecer um tigre, deves ser corajoso. No fim do caminho há um precipício, deves ser moderado. Este é um caminho de homens, criado por quem os conhece.”
A PROPÓSITO, ANTÓNIO MARTINHO ESCREVE V
Do outro lado do espelho, um corvo pergunta-me obstinado:
- Que idade pensas que tens?
Sem lhe responder, pergunto-lhe:
- É teu o manto negro que me cobre? E o tigre que me arranha e rosna?
- É meu o manto, mas o tigre é do velho Raaj.
Ao ouvir isto, arrojo-me contra o tigre, mas enrolados um no outro, atravessamos o espelho para o outro lado e caímos, em pleno voo, no vazio de um precipício. Eu sei que é uma queda que não nos vai matar porque, felizmente, se trata de um precipício sem fundo. Mas o tigre não sabe e rasga-me a carne.
(Publicado a 11 Julho 2013)

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