#76 RELOADING
- Qual é, para ti, o melhor momento do dia?
- O melhor?
- Sim, o melhor. Aquele momento em que não te apetece desistir de tudo e em que sentes que, sim, vale a pena ter acordado. Há sempre momentos desses, que se repetem dia após dia, e em que por vezes nem reparas, mas que noutras alturas te extasiam de uma forma tão avassaladora e incompreensível que quase rebentas. Não me digas que não se passa contigo?
- Claro que sim.
- E então, qual é? O teu momento de ânimo diário? Conta.
- Hum… Suponho que seja de manhã, quando chego aqui ao escritório. E ligo o computador, abro o email. Aquele momento em que a página fica branca e aparece lá escrito “loading”, um segundo ou nem tanto. Sabes? E sinto incerteza, expetativa, um pedaço enorme de esperança. Sinto o desejo de que esteja ali, à minha espera, qualquer coisa de novo e inesperado, um email qualquer que seja libertador, percebes?, que possa mudar a minha vida, que me faça feliz. Não sei se contigo é igual.
- Nem por isso.
- Estou ali a olhar para o computador, “loading”, não imaginas como gosto desta palavra. E depois, estupendo, claro que há mensagens novas, alguém se lembrou de mim, para me dizer “olá”, para me preencher a vida ou assim. Ter mensagens novas, acho que é o momento mais leve do dia; o mais esperançoso. Fico durante um segundo ou dois a olhar para o monitor, sentindo o ânimo encher-se e ficar repleto de esperança. E depois tenho o dia inteiro pela frente...
- Ena. A sério? Bom, acho que nunca pensei nisso. Nunca reparei. Diz “loading”? De qualquer forma, tenho sempre o email cheio de powerpoints e tal. Uma seca. Mas queres saber qual é o melhor momento do dia, para mim? É à noite, dia sim dia não, quando chego a casa e não tenho que decidir o que vou fazer para o jantar porque eu e o Zé alternamo-nos a fazê-lo. Uma alegria, nem imaginas. Foda-se. Nos dias em que é a vez dele só me apetece ir à varanda e gritar: “mordam-se de inveja mulheres criadas dos maridos”.
Depois as duas mulheres calam-se e permanecem em silêncio, acabando de fumar os cigarros, debruçadas na varanda e olhando os carros que passam. Ouve-se uma voz, vinda do interior do escritório, a repreender alguém, falando insistentemente de objetivos e metas; talvez as duas mulheres estejam a contar o número de vezes que a palavra “objetivo” é repetida, talvez estejam com vontade de atingir as metas sem terem de cumprir os objetivos. Uma delas poderia dizer: «Porque não mudas para o gmail ou para outro qualquer, que diga “loading” enquanto abre?» A outra poderia responder: «Porque a seguir ao “loading” receio que apareça “please wait…” e eu detesto esperar». Mas ficam em silêncio, até que eventualmente o senhor dos objetivos as chama. E elas vão.
Remix do texto #76: Loading, de Paulo Kellerman
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